Destinos Nacionais Atualizado em 11 de setembro de 2026 por Camila Resende

Pesquisadora da UFMG relê a viagem de 240 km feita por Guimarães Rosa pelo Cerrado mineiro em 1952 e mostra como o autor já apontava a devastação ligada às siderúrgicas. Obra completa 70 anos em 2026.

Neste Dia Nacional do Cerrado, a pergunta que muita gente faz é simples: por que voltar a falar de Guimarães Rosa quando o assunto é meio ambiente? A resposta está numa viagem de 1952.

Naquele ano, já célebre, o escritor integrou uma comitiva de boiadeiros que percorreu 240 quilômetros do Cerrado mineiro, entre Três Marias e Araçaí. Anotou tudo em cadernetas. Entre bichos, plantas e o movimento das pessoas, registrou também os riscos de devastação que apareciam no horizonte por causa das siderúrgicas.

Em 1952, Guimarães Rosa percorreu 240 km do Cerrado mineiro e anotou riscos de devastação ligados às siderúrgicas. A bióloga Mônica Meyer, da UFMG, relê esses registros e mostra o bioma como personagem de Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile.

O que a viagem de 1952 virou

As anotações alimentaram obras publicadas em 1956: Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, que completam 70 anos em 2026. A professora Mônica Meyer, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lançou no mês passado a segunda edição de "Ser-tão natureza", em que investiga a presença ecológica na obra de Rosa.

"Ele viu que o forno das siderúrgicas era alimentado com o carvão oriundo do Cerrado. Hoje a gente sabe que a devastação é feita pelo agronegócio", explica a pesquisadora.

Para ela, a viagem é um inventário do Cerrado da década de 1950. "Um material de extrema riqueza que faz essa intersecção da natureza com a cultura".

Cerrado como personagem, não cenário

Meyer destaca que Guimarães Rosa não trata o bioma como pano de fundo, mas como personagem. "O ser humano não está dissociado da natureza. A natureza faz parte do corpo de cada ser vivo", diz.

Os registros aparecem nos contos de Corpo de Baile e em Grande Sertão: Veredas. As obras detalham o rio de Janeiro, afluente do São Francisco, em Três Marias, além dos bichos, das plantas e das raízes pivotantes que precisam absorver muita água. "O Grande Sertão: Veredas é um romance aquático", resume a pesquisadora.

Riobaldo e Diadorim lidam com as alterações da natureza. O romance traça as duas estações do Cerrado: a chuva, de melhores condições, e a seca que precisa ser vencida.

Um dos momentos citados é quando Diadorim mostra a Riobaldo o manuelzinho-da-crôa, nome popular da batuíra-de-coleira. O personagem nunca tinha olhado para o passarinho com prazer nem para a beleza daquele espaço.

"Guimarães Rosa estimula o leitor a olhar para a natureza com outros olhos, não como recurso natural ou como mercadoria, mas como um espaço vivo", afirma Meyer.

Segundo ela, a obra serve para trabalhar educação ambiental. "É, sem sombra de dúvida, uma grande enciclopédia do Cerrado."

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