# Pantanal: enfrentar mudanças climáticas depende de outros cinco biomas

> Pantanal depende diretamente da saúde de cinco biomas vizinhos, Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga e Pampa, para enfrentar mudanças climáticas. Dados do Mapbiomas indicam perda de 84% da savana alagada desde 1985. Projetos de restauração e monitoramento hidrológico buscam reduzir o impacto, mas a preservação integrada dos ecossistemas adjacentes é condição essencial para a resiliência do bioma.

*Eco Pantanal Extremo · Destinos Nacionais · 27 de agosto de 2026 · Dona Lurdes Ferreira*

O Pantanal, menor em extensão, é o bioma mais influenciado por outros cinco ecossistemas. Dados do Mapbiomas mostram perda de 84% da savana alagada desde 1985. Conheça os projetos que buscam frear o impacto das mudanças climáticas.

Eu aprendi cedo que a água do Pantanal não nasce ali. Ela vem de longe, de outros quintais. E é justamente essa lição que a ciência repete: o Pantanal, pequeno em extensão, é gigante em acolhimento, e enfrentar as mudanças climáticas ali depende de outros cinco biomas. São eles: Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica, no Brasil, e Chaco e Bosque Chiquitano, na Bolívia e no Paraguai.

Essa característica faz do Pantanal um grande reservatório de água e vida que percorrem longas distâncias e alcançam a maior planície alagável do mundo. A diversidade criada pelo encontro das águas resulta na beleza natural da região, mas também a torna mais vulnerável e ameaçada pelas mudanças climáticas.

"É uma planície que depende da reação e das causas nos outros biomas e é afetado por toda essa situação. Ainda mais com as mudanças climáticas atuando também no entorno dele", diz Cyntia Santos, analista de Conservação do WWF-Brasil.

Os números mostram que a preocupação é real. Segundo dados do último mapa de uso e cobertura da terra, divulgado pelo Mapbiomas em 2025, a Savana Alagada no Pantanal já perdeu mais de 1 milhão de hectares, na comparação com o início da série histórica em 1985. A área perdida corresponde a 84% do que havia de savana alagada no bioma, sendo que a maioria, 833 mil hectares, foi convertida em outros tipos de formação, como a savânica ou a campestre. Na prática, o Pantanal está secando.

Quem vive essa seca de perto é Claudinei Terena, engenheiro florestal e botânico, nascido na Terra Indígena Limão Verde, em Aquidauana (MS). Ele lembra que "partes de rios já sumiram, assorearam, lugares que a gente chama de vazantes, que são partes que o rio enche e esvazia, hoje não tem mais e os rios estão bem fracos".

Claudinei usou o conhecimento tradicional para atuar no projeto de restauração de 3,3 hectares de áreas de nascentes de rios dentro da Terra Indígena. O objetivo era garantir que a água que flui direto para o Pantanal também mantivesse aquele pedaço de Cerrado produtivo. "A gente sempre trabalhou com agrofloresta sem a gente perceber. A gente sempre plantou em consórcio com alguma coisa", explica.

Um pouco mais distante, na comunidade quilombola Santa Tereza, em Figueirão (MS), o coletor de sementes Adauto Cândido Pereira, integrante da Rede Flores do Cerrado, também reconhece na restauração das nascentes o caminho para recompor rios. Ele conta que são 31 coletores e coletoras, sendo 16 mulheres e 15 homens, que trabalham com regras básicas, como deixar 30% da semente na árvore.

Esses projetos fazem parte das intervenções de restauração das cabeceiras de rios feitas pelo WWF-Brasil no bioma Cerrado, para frear as transformações no uso da terra que causam o soterramento das nascentes e impedem o fluxo dos rios que escoam para o Pantanal. Segundo Cyntia Santos, é "uma consequência de atividades econômicas feitas, muitas vezes, de forma desorientada, sem experiência. Falta apoio técnico, falta incentivo".

O diretor executivo do WWF-Brasil, Maurício Voivodic, lembra que, em 30 anos de atuação da organização no Brasil, 22 são de atuação mais intensificada no Pantanal. Para restabelecer os fluxos dos rios, também são desenvolvidos projetos de conscientização sobre outros usos dos corpos de água, como a instalação de pequenas centrais hidrelétricas. Cyntia Santos defende que "a energia elétrica tem que ser por outras fontes, por exemplo, energia solar, que é uma das mais adequadas para região".

Dentro do Pantanal, ações para o enfrentamento aos incêndios florestais e a conectividade de vegetação nativa, por meio de corredores que ligam unidades de conservação, fortalecem espécies como a onça-pintada, indicador da saúde da biodiversidade local. E o conhecimento tradicional dos povos que habitam o bioma é peça fundamental. Como diz Cyntia: "A gente consegue com isso potencializar informações, trabalho conjunto, otimizar estratégias e juntos avançar".

---

Fonte (canonical): https://ecopantanalextremo.net.br/destinos-nacionais/pantanal-enfrentar-mudancas-climaticas-depende-outros-cinco-biomas/
