Dicas de Viagem Atualizado em 31 de julho de 2026 por Sérgio Tavares

Ventos acima de 100 km/h em RJ, SP e RS provocaram mortes e transtornos. Especialistas apontam que as cidades brasileiras não estão preparadas para eventos climáticos extremos e defendem adaptação urgente.

Ventania em RJ, SP e RS expõe falhas na resposta a extremos climáticos

Ventos acima de 100 quilômetros por hora (km/h) atingiram São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul nos últimos dias, deixando mortos e transtornos generalizados. Para especialistas em clima e meio ambiente, o fenômeno mostrou, mais uma vez, que as cidades brasileiras não estão preparadas para lidar com eventos climáticos extremos. A preocupação cresce com a previsão de que, no segundo semestre deste ano, o país sofra impactos de intensidade moderada a muito forte por causa do El Niño.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a previsão inclui chuvas excessivas, secas severas e ondas de calor, dependendo da região.

Por que as cidades não estão preparadas para extremos climáticos

O professor de Ciências Ambientais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Pedro Torres, avalia que a gestão das cidades é apenas reativa diante dos fenômenos extremos e ignora riscos futuros. Torres também integra o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), principal órgão científico global da Organização das Nações Unidas (ONU).

"Se entendemos que estamos vivendo uma emergência climática, as ações para a adaptação precisam também entrar nessa seara da emergência. Eventos extremos vão acontecer cada vez mais e com mais intensidade. Não se trata apenas de ter um melhor alerta. O desafio agora é construir cidades mais resilientes", diz Torres.

O que falta na gestão de riscos, segundo especialistas

O porta-voz da Frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, afirma que a gestão de riscos precisa considerar três etapas complementares. Não basta a previsão meteorológica e a emissão de alertas, se as cidades não tiverem estruturas adaptadas para lidar com o problema quando ele acontece.

"A maior atenção tem que ser dada em como a cidade está sendo pensada para proteger as pessoas. Eventos extremos serão o nosso normal a partir de agora", diz Rodrigo. "A gente precisa priorizar a prevenção e o pós-desastre justamente para, quando a emergência chegar, não ficar perdido tentando saber o que fazer."

O caso do Rio de Janeiro: alertas em cima da hora

No Rio de Janeiro, os alertas sobre ventos fortes foram emitidos pouco tempo antes do início do fenômeno na quarta-feira (29), o que levantou questionamentos sobre a eficácia do monitoramento meteorológico e da comunicação à população.

Segundo o Centro de Operações da Prefeitura do Rio (COR-Rio), o Sistema Alerta Rio emitiu um aviso meteorológico às 14h15 com informações sobre rajadas a partir da tarde. "A partir do momento em que foram identificadas rajadas intensas de vento, os avisos foram emitidos via SMS e WhatsApp para todos os moradores cadastrados no Sistema de Avisos", diz nota do COR-Rio.

A Secretaria de Estado de Defesa Civil (Sedec-RJ) informou que o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden-RJ) emitiu alerta às 15h30 sobre rajadas moderadas ou fortes nas regiões Costa Verde, Sul Fluminense, Baixada Fluminense, Metropolitana, Baixadas Litorâneas e Norte Fluminense.

"Quarenta e quatro prefeituras têm autonomia para emitir as mensagens via SMS diretamente à população. Os demais [48] são cobertos pelos serviços da Sedec-RJ", diz a nota.

A imprevisibilidade não justifica a falta de preparo

Rodrigo Jesus avalia que a ventania no Rio pode ser considerada um fenômeno de evolução rápida, com margem de incerteza para a meteorologia. Mas a pergunta central não deve ser se a previsão acertou a velocidade exata do vento, e sim se a cidade conseguiu responder rapidamente e proteger a população.

"A imprevisibilidade meteorológica não deve ser justificativa para que a gente não tenha uma cidade preparada. O limite não é da tecnologia, o limite é justamente da política pública e dos gestores públicos", analisa.

Medidas práticas para evitar transtornos em ventanias

Além das mortes, os transtornos envolveram quedas de árvores, apagões de energia para milhares de pessoas e paralisação no transporte público. Para o especialista do Greenpeace, esses problemas poderiam ser evitados com planejamento adequado. Entre as medidas estão:

  • manejo preventivo da arborização urbana
  • modernização da rede elétrica
  • atualização dos mapas de risco
  • revisão dos planos de adaptação climática
  • incorporação do risco climático em projetos de infraestrutura

Rodrigo defende que todos os projetos aprovados pelas secretarias de obras passem por avaliação sobre como contribuem para proteger a população. Concessionárias privadas de serviços públicos, como energia elétrica, também precisariam apresentar planos de gestão de risco.

"A prefeitura precisa ficar atenta aos contratos de concessão e verificar se a empresa privada está apresentando o plano de mitigação de manejo de risco", diz.

Para o professor Pedro Torres, uma medida que pode fortalecer a adaptação é a criação de abrigos climáticos: espaços para proteger as pessoas durante eventos extremos, que também funcionariam como locais de cultura, debate e informação, fortalecendo a cultura do risco e da prevenção.

Educação ambiental e cultura do risco

Os especialistas defendem investimentos permanentes em educação ambiental e formação da população para emergências. Torres aponta que o Brasil tem déficit nesse tema e que o processo depende de ações permanentes envolvendo escolas, universidades, empresas e poder público.

"Os próprios alertas muitas vezes não são levados a sério. Isso revela uma falta de cultura do risco que precisa ser trabalhada desde cedo", diz o pesquisador.

Rodrigo Jesus cita o exemplo de países como Japão e Filipinas, que incorporaram protocolos de emergência ao cotidiano por meio de campanhas permanentes, simulados e atividades nas escolas.

"A gente aprende desde cedo como agir em um incêndio ou em um acidente de trânsito. Mas poucas pessoas recebem orientação sobre como agir diante de uma ventania extrema, uma onda de calor ou uma inundação", conclui.

Perguntas Frequentes

O que causou a ventania em RJ, SP e RS?

Ventos acima de 100 km/h atingiram os três estados, provocando mortes e transtornos. Especialistas associam o evento à falta de preparo das cidades para extremos climáticos, com previsão de mais impactos no segundo semestre por causa do El Niño.

Quais foram os principais transtornos?

Quedas de árvores, apagões de energia para milhares de pessoas e paralisação no transporte público foram os principais problemas relatados.

O que é um abrigo climático?

São espaços para proteger pessoas durante eventos extremos, que também podem funcionar como locais de cultura, debate e informação, fortalecendo a cultura do risco e da prevenção.

Como o Brasil pode se preparar melhor?

Especialistas defendem manejo preventivo da arborização, modernização da rede elétrica, atualização de mapas de risco, revisão de planos de adaptação e investimento em educação ambiental desde cedo.

Por que os alertas no Rio foram emitidos em cima da hora?

O COR-Rio emitiu aviso às 14h15 e o Cemaden-RJ às 15h30, pouco antes do fenômeno. A imprevisibilidade meteorológica explica parte do atraso, mas especialistas afirmam que a falta de preparo é o principal problema.

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