Estudo da UFPE revela que o barulho de barcos e turistas em praias de Pernambuco afeta a comunicação dos peixes, com impactos na reprodução e defesa de território. A poluição sonora subaquática pode comprometer a saúde dos recifes de corais.
Barulho de barco e de turistas afeta comunicação de peixes, diz estudo
O ruído de motores de embarcações, como lanchas e motos aquáticas, e de banhistas afeta a comunicação sonora entre os peixes, o que pode causar impactos negativos na alimentação, reprodução e defesa de território de várias espécies. A poluição sonora encobre os sons emitidos pelos peixes e representa risco para a saúde de recifes de corais.
Sim. Estudo da UFPE publicado na Neotropical Ichthyology mostra que o ruído de motores de embarcações e de banhistas afeta a comunicação sonora entre os peixes, prejudicando alimentação, reprodução e defesa de território. A poluição sonora encobre os sons emitidos pelos peixes e representa risco para a saúde de recifes de corais.
Como o barulho humano interfere na comunicação dos peixes
A constatação faz parte de um artigo de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), publicado nesta segunda-feira (20), na revista científica Neotropical Ichthyology e divulgado pela Agência Bori, voltada a estudos científicos. Apesar de a publicação ser em inglês, o periódico é editado pela revista oficial da Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI).
De acordo com um dos autores do estudo, Túlio Freire Xavier, do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE, a análise mostrou que "houve uma redução clara na ocorrência dos sons produzidos pelos peixes". Segundo ele, a diminuição foi identificada "justamente" onde havia maior presença de ruído causado pela ação humana.
"Isso pode acontecer porque os sons ficam mascarados pelo barulho das embarcações, tornando-se mais difíceis de detectar, ou porque alguns peixes realmente reduzem ou alteram sua produção sonora em resposta ao ruído", diz.
Onde o estudo foi realizado
O trabalho de campo foi conduzido em duas regiões turísticas no litoral de Pernambuco: as praias de Carneiros, na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe; e Tamandaré, na APA Costa dos Corais. Essas duas praias foram selecionadas por serem destinos turísticos populares com dinâmicas diferentes, o que permitiu comparar os impactos sonoros. Carneiros é um destino popular durante o ano todo, enquanto Tamandaré apresenta variações sazonais, com pico no verão.
Em cada praia, os pesquisadores mediram os sons tanto em pontos perto da costa, mais influenciados pela atividade humana; e pontos abrigados, onde a estrutura de recifes serve como barreira para o som.
Como os pesquisadores coletaram os dados
Para chegar aos resultados, os pesquisadores instalaram nos pontos de monitoramento um sistema de gravação subaquática. Cada sessão de monitoramento teve dez horas contínuas de gravação diária, somando 80 horas de dados acústicos. Além de captura dos sons, mergulhadores fizeram uma espécie de censo visual, contando a quantidade e espécie de peixes. Foram encontradas de 18 a 23 espécies. Em Carneiros, eles localizaram quase 1,4 mil peixes. Os registros foram realizados em janeiro e fevereiro de 2022, período de alta temporada, e em abril de 2023.
A pesquisa identificou nove diferentes tipos de sons de peixes. Três deles deixaram de ser emitidos em locais expostos à presença de pessoas.
O que os peixes perdem com a poluição sonora
A ictiologia explica que os peixes produzem grande diversidade de sons, que são fundamentais para sua comunicação e sobrevivência nos recifes, que se manifestam por meio de pulsos, às vezes únicos, às vezes repetidos e formando sequências. Alguns peixes não produzem sons. Os sons emitidos pelos peixes são relacionados a comportamentos específicos e famílias de peixes. Biologicamente, são essenciais para localização de parceiros e reprodução, defesa de território contra invasores, interações em grupo, e alimentação e detecção de predadores.
A poluição sonora humana foi relacionada também à redução na complexidade acústica - índice que mede a variação de padrões sonoros dos peixes ao longo do tempo. Os ruídos causam um fenômeno chamado "mascaramento acústico", quando o som contínuo dos barcos esconde sinais acústicos dos peixes. Outro impacto é a supressão de comportamento, quando o ruído pode levar os peixes a reduzir ou cessar vocalizações.
O pesquisador Túlio Freire Xavier destaca que os peixes da região são fundamentais para a saúde dos recifes de corais, contribuindo para o equilíbrio de cadeias alimentares. "Os peixes recifais desempenham papéis importantes no controle de algas, na manutenção dos corais e na produtividade desses ambientes."
Ele ressalta que os recifes sustentam atividades importantes para a economia da região, como o turismo e a pesca artesanal. "Quando a poluição sonora interfere no comportamento desses peixes, existe o potencial de afetar, ainda que de forma indireta, os serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem", diz.
Impacto pode ocorrer em outros recifes brasileiros
O especialista da UFPE aponta que, apesar de o experimento ter sido realizado no litoral pernambucano, o impacto de sons da atividade humana na vida dos peixes não é "exclusivo desses locais". "Sempre que houver intenso tráfego de embarcações, turismo náutico ou outras fontes de ruído subaquático que coincidam com as frequências utilizadas pelos peixes, existe potencial para impactos semelhantes", afirma.
"A intensidade desses efeitos provavelmente varia de acordo com a quantidade de embarcações, as características do recife e as espécies presentes, mas o problema pode ocorrer em outros importantes recifes brasileiros, como Abrolhos e Fernando de Noronha", complementa.
O que pode ser feito para reduzir o impacto
Túlio Xavier explica que ainda não existem limites universalmente aceitos para níveis seguros de ruído em ambientes recifais voltados à proteção dos peixes. "Esse é um campo que ainda precisa avançar bastante. Estudos como o nosso ajudam justamente a construir esse conhecimento", diz.
Ele destaca que o conhecimento científico gerado é compartilhado com gestores e comunidades locais, para contribuir com políticas públicas de manejo das regiões. O especialista em biologia marinha da UFPE sustenta que turismo e conservação não precisam ser incompatíveis, mas que o componente acústico deve passar a ser considerado no planejamento das atividades.
"O ruído subaquático é uma forma de poluição que normalmente passa despercebida", avalia. Ele aponta que medidas "relativamente simples", como organizar rotas de embarcações, reduzir a velocidade em áreas sensíveis e evitar concentração excessiva de atividades sobre determinados recifes, podem contribuir para diminuir esse impacto.
"Proteger a paisagem sonora significa também ajudar a preservar o funcionamento ecológico desses ecossistemas e os benefícios que eles oferecem à sociedade."
Perguntas Frequentes
O barulho de barcos realmente afeta os peixes?
Sim. Estudo da UFPE mostra que o ruído de embarcações e banhistas mascara os sons dos peixes, prejudicando comunicação, alimentação e reprodução.
Onde o estudo foi realizado?
Nas praias de Carneiros e Tamandaré, no litoral de Pernambuco, em áreas de proteção ambiental.
Quantas espécies de peixes foram encontradas?
Foram encontradas de 18 a 23 espécies, com quase 1,4 mil peixes em Carneiros.
O problema é exclusivo de Pernambuco?
Não. O pesquisador alerta que pode ocorrer em outros recifes brasileiros, como Abrolhos e Fernando de Noronha.
O que pode ser feito para minimizar o impacto?
Medidas como organizar rotas de embarcações, reduzir velocidade em áreas sensíveis e evitar concentração excessiva de atividades sobre recifes.
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