Viagem Internacional Atualizado em 26 de julho de 2026 por Sérgio Tavares

Um estudo do Unicef destaca que 333 municípios brasileiros apresentam alta vulnerabilidade socioambiental para crianças e adolescentes. A plataforma revela a exposição a riscos climáticos e ambientais, essencial para orientar políticas públicas.

Unicef mapeia cidades onde crianças estão expostas a riscos ambientais

Em meio a um cenário de mudanças climáticas e eventos extremos cada vez mais frequentes, um estudo realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) destaca que crianças e adolescentes estão expostos a diferentes desafios ambientais e climáticos em todo o país e que há padrões de desigualdade relevantes na distribuição dos riscos. O Painel Crianças e Meio Ambiente, lançado nesta semana, foi criado em parceria com a organização de saúde global Vital Strategies.

A plataforma revela que, no Brasil, 333 municípios foram considerados em maior situação de vulnerabilidade socioambiental e climática, o que representa 6% das cidades brasileiras. A avaliação considera 14 indicadores de exposição ambiental organizados em quatro áreas temáticas.

"Quando se está falando de eventos extremos, crianças dependem de seus cuidadores para tomar as decisões por elas. Elas não necessariamente têm autonomia ou capacidade para reconhecer situações de perigo, em que precisam sair de um determinado lugar e ir para outro. Elas dependem que seus cuidadores façam isso", destacou o especialista em Mudanças Climáticas do Unicef, Danilo Moura, em entrevista à TV Brasil.

A plataforma utiliza dados coletados entre 2021 e 2025 e permite consultar a situação de cada um dos 5.571 municípios brasileiros. Entre os indicadores analisados estão a ocorrência de chuvas intensas, ondas de calor ou secas em anos recentes; a população sem água tratada ou coleta de esgoto; e a poluição do ar, que pode ser causada pelo transporte público ou que excede os limites recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Os diferentes indicadores de cada município são classificados em três níveis de prioridade, dependendo da gravidade da situação. Segundo o levantamento, os 333 municípios que têm alta prioridade, ou nível 3, em mais de dez dos 14 indicadores, configuram uma situação de vulnerabilidade severa e multidimensional. Neste grupo, há uma alta concentração de municípios da região Norte e do Maranhão.

Na outra ponta, 108 municípios (1,9%) não apresentaram alta prioridade em nenhum dos indicadores analisados. De acordo com a representante adjunta do Unicef no Brasil, Layla Saad, a iniciativa permite enxergar as diferenças de maneira mais clara. "Transformar os dados em prioridades ajuda a fortalecer a capacidade dos municípios, entender onde estão os maiores desafios, e como direcionar uma política pública, um programa, ou um orçamento", disse no lançamento da iniciativa.

Os dados mostram que os municípios com maior número de indicadores em alta prioridade estão majoritariamente nos estados do Pará, Acre, Amazonas, Maranhão e Mato Grosso. Entre os 30 municípios com pior desempenho agregado, 24 pertencem à região Norte e quatro ao Maranhão. Os outros quatro estão em Mato Grosso.

A nota técnica aponta que muitos desses municípios têm populações pequenas e economias locais dependentes de atividades primárias, o que amplia a exposição a riscos climáticos e socioambientais, além de limitar a capacidade de resposta local.

Na análise de qualidade do ar, que investigou o percentual de dias entre 2021 e 2025 em que a concentração de partículas finas superou o recomendado pela OMS, a região Norte demonstrou maior prioridade, com 94% dos municípios afetados. Essa situação se deve, provavelmente, às queimadas.

A região Sudeste também se destaca neste quesito. Embora apenas 39% dos municípios estejam no grupo de maior prioridade, eles concentram 72% da população infantil da região. Nesses municípios, a baixa qualidade do ar está associada, segundo análise, ao transporte e a atividades industriais.

Os dados relacionados a eventos climáticos extremos mostram que as regiões Norte e Sul concentram 91% e 68%, respectivamente, dos municípios de atenção, principalmente no que se refere a chuvas intensas.

Os indicadores relacionados à infraestrutura ambiental e urbana indicam que as maiores proporções de municípios com alta prioridade estão no Norte (78%) e Nordeste (46%). Segundo a análise do Painel, no Norte, o desafio está associado à dispersão geográfica e à dificuldade de expansão de redes em território com baixa densidade populacional. Já no Nordeste, soma-se a escassez hídrica e a menor capacidade financeira dos municípios para investimento em infraestrutura.

Entre os dados relacionados ao ambiente escolar, os estados do Nordeste (52%) e Sudeste (39%) lideram a prioridade de espaços escolares sem qualquer área verde.

No Painel, lideranças municipais e cidadãos podem acessar os diagnósticos de cada um dos 5.571 municípios e compreender quais são os principais déficits e áreas de cada cidade. A plataforma também reúne 50 recomendações de enfrentamento para casos de alta prioridade, desde intervenções físicas até medidas institucionais.

Pedro de Paula, vice-presidente de Inovação da Vital Strategies, acredita que essa é uma ferramenta essencial para subsidiar ações preventivas. "Um ambiente seguro, saudável e sustentável não é apenas um direito, mas também um elemento essencial para reduzir desigualdades e promover o desenvolvimento integral na infância e na adolescência. Visando futuros melhores e mais seguros, essa ferramenta permite um olhar qualificado e individualizado para o território", completou.

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