Destinos Nacionais Atualizado em 05 de setembro de 2026 por Camila Resende

Da Amazônia ao Chaco, a América Latina enfrenta desafios com clima e terra: seca, inundações e degradação do solo ameaçam quem vive da agricultura. Veja relatos da COP17.

Quando a terra não responde mais como antes, o impacto vai além da colheita. Da Amazônia peruana ao Chaco argentino, a América Latina enfrenta desafios com clima e terra que atingem diretamente quem vive da agricultura e da floresta. Relatos de lideranças locais, compartilhados na 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), encerrada em Ulaanbaatar, na Mongólia, mostram um cenário comum: a distância entre metas internacionais e o cotidiano de quem depende do solo.

Na região, cerca de 28% dos territórios são de terras degradadas, segundo a convenção das Nações Unidas especializada no combate à desertificação (UNCCD). O índice é bem superior à média global, que gira em torno de 15% a 16%. A conferência terminou com novos mecanismos de financiamento e maior participação formal de povos indígenas e comunidades, mas representantes latino-americanos apontam que ainda falta ponte entre as decisões e as realidades locais.

Na Amazônia peruana, o indígena shipibo-konibo Gilmer Yuimachi, da Associação Intercultural Bari Wesna, relata que períodos prolongados de seca reduzem rios, lagos e igarapés usados para consumo, pesca e agricultura. Cultivos como mandioca, milho, feijão e arroz são prejudicados. Para ele, o problema não é só econômico: "Significam colocar em risco nossa alimentação, nossas florestas, nossos peixes, nossas plantas medicinais e também nossos conhecimentos e nossa cultura". Yuimachi rejeita o papel de vítima: "Somos também guardiões do território e temos conhecimentos ancestrais que podem contribuir para a restauração das florestas".

Em El Salvador, a líder juvenil Xenia López acompanha 16 comunidades rurais e semi urbanas no departamento de Chalatenango, dentro do Corredor Seco Centro-Americano. A região sofre com a irregularidade das chuvas: "Quando deveria chover e abastecer a agricultura, simplesmente fica seco". Xenia trabalha com práticas agroecológicas para melhorar o uso da água e proteger o solo, mas cobra apoio de autoridades: "Precisamos de ajuda para ampliar nossas vozes em espaços internacionais e ter um lugar específico para as questões da América Central".

No Chaco Americano argentino, a professora e ativista Antonella Sleiman, da Fundação para o Desenvolvimento em Justiça e Paz (Fundapaz), vive o oposto da seca histórica. Comunidades da região do Rio Salado Norte, que aprenderam a lidar com a escassez, enfrentaram inundações inéditas em cerca de 50 anos. Famílias que produzem milho, abóbora e criam cabras, ovelhas, vacas e porcos perderam plantações e vegetação para alimentar os animais. "Este ano, pela primeira vez, algumas comunidades precisaram comprar alimentos para as famílias e para os rebanhos em localidades distantes", conta. Antonella integra a Mesa de Tierra del Salado Norte, que reúne oito organizações camponesas e indígenas, e a Plataforma Semiaridos, com 16 instituições de 10 países.

A brasileira Thaiane Maciel, 33 anos, engenheira ambiental e fundadora do Instituto Ecocria, participou da COP17 pela coalizão de juventude. Para ela, a questão da terra engloba água, sistemas alimentares e migrações climáticas. Ela defende modelos como a agrofloresta e critica a visão de que jovens ainda estão em aprendizado: "Muitos jovens já estão consolidados ou têm essa bagagem técnica e de vivência no território". impacto da seca na agricultura familiar o que é desertificação e como evitar

As soluções comunitárias existem, mas dependem de apoio estrutural. A agroecologia, o manejo adaptativo e a valorização do conhecimento ancestral aparecem como caminhos concretos. O desafio, como apontam os participantes, é transformar as decisões da COP17 em políticas que cheguem a quem vive da terra, antes que a próxima estiagem ou enchente chegue.

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