Destinos Nacionais Atualizado em 13 de setembro de 2026 por Felipe Akira

A maior máquina de chuva do planeta está sob pressão. Cientistas alertam que a devastação na Amazônia já reduz chuvas no Brasil e na Bolívia, e a quebra desse sistema atingiria o abastecimento de água e a agricultura em todo o continente.

Uma máquina silenciosa trabalha todos os dias para que milhões de pessoas na América do Sul tenham água, rios e plantações. Essa máquina é a Amazônia. A umidade do oceano vira chuva sobre a floresta, as árvores absorvem essa água do solo e a devolvem à atmosfera como vapor, e o vento espalha esse vapor pelo continente, fazendo chover em várias regiões.

A devastação na Amazônia pode quebrar a maior máquina de chuva do mundo, segundo pesquisadoras que participaram da última edição do TEDxAmazonia, no fim de agosto, no Equador. O sistema de rios voadores já dá sinais de pressão, e a quebra dele atingiria o abastecimento de água, a agricultura e o clima de todo o planeta.

A pesquisadora Julia Valentim Tavares explica que essa é a principal infraestrutura hídrica da América do Sul e a maior máquina de chuva do planeta. Uma árvore adulta na Amazônia pode liberar de 200 a 300 litros de água por dia para a atmosfera. Nas palavras dela, se fosse possível enxergar essa umidade, veríamos rios gigantes voando no céu, os rios voadores.

Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia, entidade que reúne mais de 350 cientistas dedicados a estudar o bioma, afirma que a floresta é a coluna vertebral dos ciclos de água, nutrientes e carbono em níveis local, regional e global. Para ela, a Amazônia sustenta a vida não só na região amazônica, mas no planeta como um todo.

O alerta é direto: mineração, narcotráfico, desmatamento e queimadas atingem a conectividade amazônica, fator central para a conservação do bioma. Os efeitos no clima já são mensuráveis. Há evidências de que o desmatamento na Amazônia brasileira resulta em menos chuva em regiões do Brasil e da Bolívia. Em áreas desmatadas, a temperatura sobe e as secas ficam mais intensas e mais longas.

Em 2024, a Amazônia enfrentou a pior seca da sua história, por consequência do El Niño, fenômeno natural de aquecimento das águas do Oceano Pacífico que altera a circulação atmosférica e tem se tornado mais intenso. Segundo Marielos, 88% da bacia amazônica sentiu os efeitos dessa seca, que também interferiu na máquina de chuva. Bogotá, capital da Colômbia, sofreu desabastecimento de água. Em Quito, capital do Equador, a falta de água levou a cortes no fornecimento de energia elétrica.

A seca também deixou a Amazônia mais vulnerável às queimadas, que foram recordes naquele ano. Julia lembra que a fumaça dos incêndios se espalhou pelo país e alcançou até a Região Sudeste. Para ela, isso revelou duas coisas: a Amazônia nunca esteve distante, e milhões de pessoas dependem dela sem se sentir conectadas.

A previsão de um super El Niño para este ano acendeu o sinal de alerta. Julia explica que, quando essas secas ocorrem, a floresta ou tem mortalidade por falha hidráulica, ou para de crescer, e com os eventos de fogo a Amazônia deixa de funcionar como sumidouro de carbono e passa a ser emissora, aumentando o aquecimento global.

Marielos destaca que a solução definitiva só virá com a diminuição drástica das emissões de gases do efeito estufa, o que depende da substituição dos combustíveis fósseis por fontes menos poluentes de energia. Ela também defende investir na conectividade, restaurar áreas degradadas e recuperar o que foi desmatado para produção. A Amazônia já se aproxima do ponto de não retorno, e a perda total dessa conectividade seria catastrófica para o mundo todo.

Quem depende de chuva para plantar, beber ou gerar energia sente esse efeito no próprio cotidiano. A pergunta que Marielos propõe é simples: de onde nasce a água de inúmeras cidades latino-americanas, da agricultura, da pecuária e da indústria? A resposta passa pela floresta. como funcionam os rios voadores

Acompanhar os alertas científicos e cobrar conservação não é papel só de quem vive na Amazônia. É planejamento de segurança hídrica para todo o continente. impacto do desmatamento no clima

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